domingo, 28 de março de 2010

Frases do Marquês de Sade


"Não há paixão mais egoísta do que a luxúria."

"As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins."

"É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência."





À flor da tela

Teclas letras
digitais
a língua lambe
metais
nudez digital
à flor
da tela.

Palavras se enlaçam,
exalam
talos úmidos de pólen
falos de pétalas
na pele das bocas
nervuras e frestas

letras de púbis-tremor.

Nos olhos as danças
e meus pudicos
diabos em flor.
Mas ao longo da linha
a carne
calada no dorso
do osso se mostra

(pérolas entornam)

e nas coxas da língua
de gozo no dorso
roça na minha
a palavra desforra.


Susanna Busato



domingo, 14 de março de 2010

Livros



Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
Composição: Caetano Veloso

Vilarejo íntimo

A luz elétrica vai embora as dez horas da noite em minha aldeia
Vai também o desejo dos meus olhos em persistirem abertos
Entro então na fabricação de frágeis pecados em tua honra
Sobe feito planta parasita pelo meu cérebro...

O contorno dos teus lábios pelos meus imaginares
Frases tuas de insuportável beleza
nesse escuro que vem sempre, e eu aguardo confessadamente
Em temperaturas descontroladas nesse breu...

Quando levam embora a claridade do mundo lá fora, eu te guardo
Como uma fêmea prenha no tremulo fosso, do meu umbigo rosado
apenas prometa-me amor discreto e agudo
quando novamente voltarem as luzes

(Fernanda Porto)

Outras frases

"David Lynch? Antonioni? A comparação é elogiosa, mas penso que no mundo das artes não existe nada de novo.As influências circulam, se recriam. São como fantasmas vagando sobre todos nós, são atmosféricas, estão no ar, é o Espírito do Tempo. E muitas vezes são inconscientes."
(Suzana Amaral, 77, cineasta, em entrevista a Revista de CINEMA, ed 97)

"Entre livro e internet, prefiro o livro. Pelo menos ele só cai quando eu durmo."
(Eugênio Mohallem)

"Quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ainda ser feliz."
(Jules Renard)

"Eu escrevo para não morrer."
(Clarice Lispector)

"O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver."
(Daniel Pennac)

Testamento

Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irrnão!

“Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo...

E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão,

pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia.

Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...”

Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!

Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

“Mas você, que esperança...

Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!),

protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!),

o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!)

e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra”

Você que só faz usufruir
E tem mulher pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!
A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

“Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima,

crente que é o amo e senhor do material.

É, amigo, mas ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso,

cheio de canções, aventura e magia.

E você nem sequer toca a sua alma.

É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas”

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho


haicais

" a palmeira estremece / palmas para ela / que ela merece"

"roupas no varal / deus seja louvado / entre as coisas lavadas"

"pelos caminhos que ando / um dia vai ser / só não sei quando"

"abrindo um antigo caderno / foi que descobri / antigamente eu era eterno"

(Paulo Leminski)

"Doutor Pasavento" (trecho)

"Não sei, trabalho em meio a trevas e tudo é misterioso. Só sei que me fascina escrever sobre o mistério de que exista o mistério da existência do mundo, porque adoro a aventura que há em todo texto que se põe em marcha, porque adoro o abismo, o próprio mistério e adoro, sobretudo, essa linha de sombra que, ao ser atravessada, nos coloca no território do desconhecido, um espaço em que de repente tudo nos parece muito estranho, sobretudo quando vemos que, como se estivéssemos no estágio infantil da linguagem, temos que voltar a aprender tudo, com a diferença de que, quando crianças, parecia que podíamos estudar e entender qualquer coisa, enquanto, na idade da linha e da sombra, vemos que o bosque de nossas dúvidas nunca se tornará tão claro e que, além disso, o que vamos encontrar a partir de então serão apenas sombras e trevas e muitas perguntas."
(Enrique Vila-Matas, trad. José Geraldo Couto, ed. Cosac Naify)

Outras frases

"Não sei muitas vezes do que estou falando, para que estou escrevendo. 
Parece que o impulso retórico às vezes é maior do que aquilo que quero dizer." (Nuno Ramos, na revista Cult, ed.144)

"A aparição midiática do escritor é a antítese da essência de seu ofício." 
(Enrique Vila-Matas, na revista Cult, ed.144)