domingo, 14 de março de 2010

Testamento

Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irrnão!

“Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo...

E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão,

pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia.

Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...”

Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!

Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

“Mas você, que esperança...

Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!),

protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!),

o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!)

e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra”

Você que só faz usufruir
E tem mulher pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!
A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

“Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima,

crente que é o amo e senhor do material.

É, amigo, mas ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso,

cheio de canções, aventura e magia.

E você nem sequer toca a sua alma.

É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas”

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho