"Não sei, trabalho em meio a trevas e tudo é misterioso. Só sei que me fascina escrever sobre o mistério de que exista o mistério da existência do mundo, porque adoro a aventura que há em todo texto que se põe em marcha, porque adoro o abismo, o próprio mistério e adoro, sobretudo, essa linha de sombra que, ao ser atravessada, nos coloca no território do desconhecido, um espaço em que de repente tudo nos parece muito estranho, sobretudo quando vemos que, como se estivéssemos no estágio infantil da linguagem, temos que voltar a aprender tudo, com a diferença de que, quando crianças, parecia que podíamos estudar e entender qualquer coisa, enquanto, na idade da linha e da sombra, vemos que o bosque de nossas dúvidas nunca se tornará tão claro e que, além disso, o que vamos encontrar a partir de então serão apenas sombras e trevas e muitas perguntas."
(Enrique Vila-Matas, trad. José Geraldo Couto, ed. Cosac Naify)