quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
de desalento...
de desencanto...
fecha o meu livro, se por agora
não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. volúpia ardente.
tristeza esparsa...
remorso vão...
dói-me nas veias. amargo e quente,
cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia ronca,
assim dos lábios a vida corre.
deixando um acre sabor na boca.
eu faço versos como quem morre.

(Manuel Bandeira)

Como uma estrela...


Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante.

E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos,

de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais.

E assim - dizem - recontam a vida.

Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue,

afinam os ossos em fios luminosos - e aí estou, pelo salão, pelas casas,

pelas cidades, parecida comigo.

Um rascunho.

Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.

Como uma estrela.

Agora eu sou uma estrela.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Os Toldos Alaranjados dos Verões do Sul

"Por um momento me perguntei com alguma apreensão se o apagamento do meu sistema procriativo poderia produzir nada mais que um orgasmo ampliado.Fiquei aliviado ao descobrir que o processo dava continuação à inefável sensação da doce morte que não tinha nada em comum com ejaculações ou espirros. As três ou quatro vezes em que cheguei a esse estágio me forcei a restaurar a parte inferior do meu 'I' branco em meu quadro-negro mental e assim escapar de meu perigoso transe."

"de calcanhar a quadril, depois o tronco, depois a cabeça quando não restar senão um busto grotesco de olhos fixos"

(Vladimir Nabokov, em O Original de Laura, extraido da revista Bravo!, ed 148)

Saudade



A melhor programação que uma emissora de TV comercial 
brasileira já teve foi nos primeiros anos da Rede Manchete.

Grávida

Eu tô grávida
Grávida de um beija-flor
Grávida de terra
De um liquidificador
E vou parir
Um terremoto, uma bomba, uma cor
Uma locomotiva a vapor
Um corredor
É que eu tô
Tô grávida
Esperando um avião
Cada vez mais grávida
Grávida
Estou grávida de chão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o Sol dilatar
Dar à luz
É que eu tô
Tô grávida
De uma nota musical
De um automóvel
De uma árvore de Natal
E vou parir
Uma montanha
Um cordão umbilical
Um anticoncepcional
Um cartão postal
É que eu tô
Tô grávida
Esperando um furacão
Um fio de cabelo
Grávida
Uma bolha de sabão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o Sol dilatar
Dar a luz
E quando o Sol dilatar
Vou dar a luz

(Compositores: Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho / Marina Lima)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009