domingo, 21 de janeiro de 2018

Trechos do livro Jangadas de Márcio Noal




Queria desaparecer. Queria esquecer todo o redemoinho de ilações que acometia o seu espírito. Precisava encontrar respostas. Precisava encontrar sentido. Tinha que achar alguma coisa que justificasse a condição de existir. Sua náusea voltou. Assim como as dores cortantes que tanto lhe afligiam a alma. Precisava de uma dose. “Uma dose de significação que legalizasse a vida” Quem sabe apenas uma dose. “Pro bar”

Ele é apenas um pobre-coitado que subloca um corpo no espaço. Mal respira além de suas incertezas vis. De suas vaidades. De suas vicissitudes. Sua vida não passa de uma frivolidade sem importância.

Também detesto ditados. É como se tentassem colocar a sabedoria do mundo numa única sentença. Como se pudessem saber o que realmente é sabedoria. Muitos não podem perceber a beleza do silêncio. Do puro e imaculado silêncio.

As pessoas viviam mecânicas, automáticas, remoendo-se em mini-ilusões de certeza. Grandiloquentes na abstração de mundos permeados de vento. Construídos sob a imposição da necessidade. Da inevitabilidade do desejo de sobrevivência. Acordando, comendo, bebendo, trepando e dormindo de novo. Amando, amargurando, fofocando, confabulando e outros tantos gerúndios. Achavam que eram felizes.

“Quando acreditamos apaixonadamente em algo que não existe, nós definitivamente o criamos. O inexistente é apenas algo que não desejamos suficiente” Doc sorriu sozinho. Kafka não era Nelson, mas também sabia das coisas.

Na tentativa de encontrar algo novo, acabam por retornar a outro instante do tempo. Algum lugar que já residiu no passado.

“A esperança é a maior das forças humanas. Se não existisse o desespero” “Vitor Hugo não estava em seus melhores dias quando disse isso.

Kafka, Baudelaire, Flaubert, Rimbaud.
Todos morreram cinzas, apáticos. Calados em suas covas. Tornaram-se imortais. Coisa que provavelmente eu não serei. O homenzinho de Danzing disse que a única felicidade da ovelha era quando o lobo aparecia faminto e comia a ovelha ao lado. Eu era essa ovelha. O animal que escolhera não amar. Que decidira sonhar com a realidade na busca de entendê-la. O lobo era a fatalidade do tempo que sempre se encerra. Agora estava prestes a morrer. Todos estavam prestes a morrer. Nascemos ampulheta à espera do último grão de areia. Alguns têm a decência de morrer cedo. Outros o disparate de sublocar um espaço no vazio da existência. O fato é que o óbito está sempre ao lado, à espera. “Viver é a arte de saber morrer” Talvez seja porque não soube viver que também não saberei morrer. “Cinza, apático. Sozinho e calado em uma cova rasa”

Caso você não saiba, eu tenho costume de refletir com meus botões. Pessoas que têm esse hábito não saem por aí dizendo besteira. Ou melhor, inventando coisas da vida alheia”

“Eu não tenho mulher porque não quero. Gosto muito de mulher. Mas gosto muito de punheta também. E, como punheta minha só eu que sei bater, prefiro minha própria companhia. Foram mais de cinquenta anos treinando.

“É preciso experimentar a sensação da perda para dar valor à frágil vida que carregamos debaixo de nossas vestes, não é mesmo?”

“É uma resposta um tanto cínica para quem disse há pouco que estava envolto em questões existenciais. Se bem que é esse o mote maior do artista, não é mesmo? Viver como eternos equilibristas entre o nada e as ausências que sempre atormentam a alma. Bonito, se não fosse apenas patético.

Um pouco de veracidade é bom quando a fantasia da vida real não é mais suficiente para burlar nossas contingências.

“Eu estava sendo cínica quando critiquei o seu cinismo. No fundo o acho ótimo. Derruba boa parte das máscaras que usamos pra nos disfarçar de nós mesmos”

“Deixa eu te ensinar uma coisa sobre o amor. O único verdadeiro é aquele que não é correspondido. Os demais se deterioram com a realidade”

nenhuma relação a longo prazo foi feita pra dar certo.

o tempo não serve pra encontrarmos a resposta certa. Serve apenas pra nos ajudar a encontrar a desculpa exata que justifique aquilo que já queríamos”

“As religiões são apenas representações dos desejos, angústias e frustrações humanas, dona Gertrulina. Como tudo que é feito pelo homem, são entremeadas de falhas. As religiões dos homens cometeram muitas injustiças no passado. Ainda cometem.

A professora acreditava que nenhum pensamento novo havia surgido desde a Grécia. Tudo que precisava ser dito já havia sido dito. O mundo vivia apenas os desdobramentos do que eles já haviam descoberto.

“Eu sempre acho divertido o fato das pessoas tentarem rotular tudo. Fala sério. É como se, ao dar nomes, fosse possível dizer exatamente aquilo que a coisa é. Como se uma palavra pudesse abranger toda a essência de algo. A ideia não é minha. É de um amigo poeta. Mas me apossei dela”

Você se surpreenderia o quanto as pessoas são iguais. Algumas pedindo pra viver a normalidade do mundo, outras sempre desejando uma pequena oportunidade para transgredir as regras do dia a dia. No fundo, todos somos ingenuamente parecidos. É possível até que sejamos feitos da mesma matéria”

“Veja. A crença numa entidade superior surge exatamente para isso. Essa é a primeira função de Deus. Ele explica e dá sentido ao mesmo tempo. Evita colisões com o vazio da existência”
Quando o homem descobriu que podia usá-lo para manutenção de seus privilégios, por exemplo, criou a religião. Talvez ela tenha surgido antes como ferramenta de controle do que como instituição para religar o homem ao mito”

“Sim. As dores são sempre inevitáveis. Sofrer é que é opcional”

“Estou tentando lhe dizer que a idade mental precisa acompanhar a cronologia do corpo, minha filha”

Sobre o amor... É possível que ele realmente precise ser inventado. Ou pelo menos o entendimento dele necessite ser revisto”

Ela finge que não sabe que estou fumando e eu finjo que não sei que ela está fingindo não saber. A vida é bem mais fácil quando todo mundo mantém determinadas coisas escondidas”

O advogado aproximou- se do caixão e o olhou por alguns segundos. Ele estava completamente diferente da última vez que o vira. Doc percebeu o quanto as pessoas se transformavam quando perdiam a vida. O fato que ela nunca é dada por completo. A sensação que se tem é que ela é apenas emprestada sob a constante ameaça de ser novamente requisitada. Os motivos que moviam esse requerimento eram desconhecidos.

existência. Mas o fato é que os humanos dimensionavam suas necessidades de tal maneira que se tornava fácil corromper valores e conceitos para que tudo pudesse convergir em benefício próprio

Quando você entra no sistema, você percebe que não pode mudá-lo. Ainda que tivesse esse poder e destituísse todos os Costa e Aguiar do país, seria uma questão de tempo até que outros tomassem seu lugar. Não se trata de alguém ou de uma família específica, meu caro. Trata- se do ser humano. Me admira alguém como você alimentar o romantismo de que, os destituindo, acabaríamos com as injustiças no mundo”

“Você mudou bastante, Jorge. Como mudou”
“Você também, Doc. Essa é a boa notícia. Todos mudamos. O que não significa que é para melhor.

Mas peixes e visitas fedem após três dias. Alguém que não lembro disse isso.

A bem da verdade, estamos sempre sós, minha filha. Mesmo quando acompanhados. Nascemos sós e morreremos sós. O cordão umbilical só funciona até o nascimento. O resto é conto da carochinha”

Um dia me falaram que as mães fazem todo tipo de sacrifício para verem seus rebentos felizes. Supondo que isso seja verdade, ela também fica contente quando os vê bem. No fim das contas, tudo que ela fez foi por sua própria felicidade. Sei que para muitos isso é algo mesquinho. Um pensamento dessa natureza nunca é bem aceito.

As pessoas insistem em papagaiar as bobagens que ouvem ao vento como se fossem verdades universais. Alguém chamou isso de obesidade mental.

O problema do projeto da humanidade é que ele já nasceu falido.

Todos precisam de um falso ídolo para dele se fazerem cópias. O fato é que isso não melhora sua ínfima posição nessa novela mal escrita.

A diferença entre a verdade e a ficção é que a segunda sempre vai fazer mais sentido que a primeira. Se bem que a explicação necessária pra sustentar uma fantasia pode ser muito mais falaciosa do que se pensa.

meu pai gostava de dizer que seu melhor amigo não tivera filhos porque não queria ver seus defeitos refletidos neles.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Filosofia em tempos bizarros - Charles Feitosa

A filosofia de fato é “filha do seu tempo”, como afirmava Hegel. Cada época clama por mais e melhores pensamentos, mas a filosofia nunca dita o que deve ser feito, cabe a cada um de nós decidir como vamos corresponder a esse clamor. Onde quer que esteja, a tarefa do filósofo consiste sempre em questionar os discursos vigentes, as explicações hegemônicas, as unanimidades de cada era. Assim foi quando Platão questionou a falta de senso crítico dos seus concidadãos atenienses em relação à poesia de Homero ou quando Hegel denunciava as consequências éticas e políticas da ascensão do “indivíduo” na modernidade.

Hoje, no mundo globalizado, a filosofia continua sendo solicitada a questionar os lugares consolidados do pensamento, seja na esfera ética/política (quando nossos concidadãos absorvem de maneira acrítica os discursos da mídias ou os boatos das redes sociais); seja na esfera epistemológica (quando,  por exemplo, as ciências humanas se rendem à tendência reducionista de considerar o cérebro como o índice mais fundamental da humanidade); ou ainda na esfera estética (quando certas instituições arquivísticas acreditam deter o poder de determinar o que é ou não é arte).

Muitas vezes a estratégia dos filósofos consiste justamente em colocar à prova a validade de certas interpretações que o ser humano faz do mundo, dos outros e de si mesmo, esticando-as ao máximo, desvelando assim suas possíveis decorrências ainda não evidentes. É famoso o comentário de Heidegger na palestra A Coisa (1951) sobre a bomba atômica, evento histórico decisivo que surpreendeu o mundo inteiro em 1945. Para Heidegger a bomba atômica de alguma maneira já tinha explodido muito tempo antes, enquanto um efeito não apenas acidental, mas sim necessário, da aposta exclusiva pela racionalidade científica, ou seja, pela exploração tecnicista da natureza, que a civilização ocidental havia feito. Logo, nenhum protesto pelo desarmamento nuclear teria êxito completo se não fosse sempre acompanhado por uma constante reflexão crítica sobre a essência da técnica, na qual depositamos todas nossas esperanças.

Outra história que ilustra essa desconfiança da filosofia em relação aos “coros dos contentes” é a famosa entrevista que Adorno deu para a revista alemã Der Spiegel em maio de 1969, no auge das manifestações, das barricadas, dos protestos estudantis que contagiavam as Américas e a Europa. Apesar de eu discordar das posições ali defendidas sobre a relação entre teoria e da prática, considero emblemático o modo como a conversa se desenrola para se compreender a singularidade do gesto filosófico. O repórter inicia sua entrevista com a seguinte frase: – “Professor Adorno, duas semanas atrás, o mundo ainda parecia em ordem…” e é interrompido firmemente pelo filósofo, que diz simplesmente: -“Não para mim”. Essas e muitas outras anedotas contribuem para a imagem do filósofo como um portador de más notícias, sempre nos alertando de que o pior estar por vir. Isso fica especialmente nítido em relação a questão da morte, que é o nosso futuro mais certo, ainda que em hora incerta. A filosofia pode ser definida desde os seus primórdios como um memento mori [em latim: lembre-se da morte] uma espécie de sino que dobra constantemente para nos lembrar da nossa condição efêmera.

Aqui vale a ressalva que o objetivo da filosofia não é nos aterrorizar com a lembrança da morte, mas sim nos provocar e sacudir, para que possamos de vez em quando reavaliar nosso modo de ver o mundo e as nossas prioridades na existência.  Da mesma forma não se deve deduzir do exposto que o papel da filosofia se reduz apenas a profetizar apocalipses, individuais ou coletivos. Isso depende muito de cada contexto. A filosofia tem sido historicamente um alerta quando o otimismo se torna hegemônico, mas acredito que ela pode também se tornar uma brisa de ar revigorante, quando é o pessimismo e a sensação de impotência que predominam, tal como ocorre no Brasil de hoje.

Quais são portanto, as tarefas do pensamento nesses tempos bizarros? O termo “bizarro” está em moda no Brasil e corre o risco de perder a força devido à sua superexposição. Tudo o que não se entende, que é incomum, extravagante, ganha a alcunha de bizarro. A origem do termo é nebulosa, como de hábito, mas alguns historiadores afirmam que ainda no século 16, “bizarro” em espanhol tinha um sentido diverso, a de garboso, valente, admirável. Somente no século seguinte, transportado para a língua francesa, que o termo ganhou o sentido que prevalece até hoje, de algo “muito anormal”. Então quando falo em tempos bizarros para descrever o momento atual de exceção no Brasil, quero apostar na ambiguidade originária desse termo, pois certamente vivemos tempos muito estranhos, marcados por ataques políticos-midiáticos-jurídicos-econômicos à democracia. Mas acredito que também poderão vir a se mostrar como “tempos de coragem”, quem sabe até como “tempos admiráveis”, onde não mais será possível deixar de se posicionar e de participar dos combates.

É por isso que prefiro descrever nossos tempos como “bizarros” e não recorrer ao já consagrado jargão “tempos sombrios”. A expressão “tempos sombrios” foi eternizada pela filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt no seu livro Men in Dark Times (1968). Nele são descritas as vidas de homens e mulheres, tais como Rosa de Luxemburgo, Walter Benjamin ou Bertold Brecht, que por meio de suas ações foram exemplos de resistência contra os regimes totalitários que surgiram durante a primeira metade do século 20. A expressão que dá nome ao livro de Arendt foi inspirada no famoso poema Aos que virão depois de nós [An die Nachgeborenen] (1934-1938) de Bertold Brecht que diz: “Eu vivo em tempos sombrios [finsteren Zeiten]. / Uma linguagem sem malícia, é sinal de estupidez. / Uma testa sem rugas, é sinal de indiferença. Que tempos são esses?”.

Apesar desse heroico pano de fundo, considero que o termo “sombrio” ainda está irremediavelmente preso ao binarismo típico da modernidade, onde a luz evoca auto-consciência e conhecimento, ao passo que a escuridão e as trevas representam a ignorância e a violência. O uso da luz como remédio pode ter sido adequado para os tempos modernos, uma época em que ainda vigorava a luta da verdade contra a mentira, mas talvez não sirva mais para o momento atual, marcado ao contrário por uma inflação de verdades a todo custo, seja na forma das fake news da internet ou ainda dos assim chamados “fatos alternativos” de Donald Trump.

Desconfio que o diagnóstico da situação atual indique ao contrário um excesso de luminosidade na vida cotidiana (representada pela a omnipresença da tecnologia, da farmacêutica, das mídias de massa, da burocracia, etc.), o que acaba deixando cada vez menos espaço para a noite (representada pelas artes, pelos corpos, por seus gestos, seus afetos, suas ações). Luz demais também cega, já indicava Platão desde a alegoria da caverna.

Dentro desse contexto “pós-moderno” talvez a tarefa do filósofo não seja mais apenas disseminar a luz, mas ao contrário defender os espaços de escuridão. Tal como bem defende o historiador da arte francês Didi-Huberman no seu belo livro A Sobrevivência dos Vagalumes (2014), para que os “vaga-lumes” – simbolizando outras formas de saberes, fora do eixo, periféricas, tais como as oriundas da matriz africana, oriental ou ameríndia – possam ser preservados da ameaça da extinção.

Para mim, mais do que defender a noite, talvez a filosofia atual precise nesses tempos bizarros partir para uma dimensão ainda mais ativista e promover ela mesma alguns “apagões” ao seu redor. Um “apagão”, como bem sabemos, é uma situação incômoda que costuma interromper nossas atividades recorrentes, seja de trabalho ou de entretenimento. Mas dependendo da nossa atitude de resposta, um apagão pode vir também a se tornar um buraco criativo no tempo cotidiano, uma oportunidade de iniciar aquela conversa consigo próprio, muitas vezes adiada, que os antigos chamavam de pensar. Durante esses apagões quem sabe possamos nos “lembrar da vida” e contrapor o pessimismo e a sensação de impotência com a invenção de mais e melhores estratégias para reconquistar os territórios que estão sendo roubados de nós, brasileiros.

Vila Isabel, Rio de Janeiro, inverno de 2017

Charles Feitosa é doutor em Filosofia pela Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIO; coordenador do Pop-Lab (Laboratório de Estudos em Filosofia Pop) e autor entre outros de Explicando a filosofia com arte (Prêmio Jabuti 2005).

revistacult.uol.com.br
10 de Julho de 2017 10:49