quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A amizade e o fundamento subjetivo das redes sociais

Complexo de Roberto Carlos

A amizade e o fundamento subjetivo das redes sociais

Marcia Tiburi
“Eu quero ter um milhão de amigos” é o famoso verso da linda canção “Eu Quero Apenas”, de Roberto Carlos. Adaptado aos nossos tempos, o verso representa o anseio que está na base do atual sucesso das redes sociais. Desde que Orkut, Facebook, MySpace, Twitter, LinkedIn e outros estão entre nós, precisamos mais do que nunca ficar atentos ao sentido das nossas relações. Sentido que é alterado pelos meios a partir dos quais são promovidas essas mesmas relações.
O fato é que as redes brincam com a promessa que estava contida na música do Rei apenas como metáfora. O que a canção põe em cena é da ordem do desejo cuja característica é ser oceânico e inespecífico. Desejar é desejar tudo, é mais que querer, é o querer do querer. Mas quem participa de uma rede social ultrapassa o limite do desejo e entra na esfera da potencialidade de uma realização que vem tornar problemática a relação entre real e imaginário. Se a música enuncia que “eu quero ter um milhão de amigos”, ela antecipa na ala do desejo o que nas redes sociais é seu cumprimento fetichista. E o que é o fetichismo senão a realização falsa de uma fantasia por meio de sua encenação sem que se esteja a fazer ficção? Torna-se urgente compreender as redes sociais quando uma nova subjetividade define um novo modo de vida caracterizado pelo que chamaremos aqui de complexo de Roberto Carlos.
Tal complexo se caracteriza pelo desejo de ter um milhão de amigos no qual não está contido o desejo de ter um amigo verdadeiro, muito menos único. A impossibilidade de realização desse desejo é até mesmo física. Não seria sustentável para o frágil corpo humano enfrentar “um milhão” de contatos reais. Na base do complexo de Roberto Carlos está a necessidade de sobrevivência que fez com que pessoas tenham se reunido em classes sociais, famílias, igrejas, partidos, grêmios, clubes e sua forma não regulamentada que são as “panelas”. Um milhão de amigos, portanto, ou é metáfora de canção ou é fantasmagoria que só cabe no infinito espaço virtual que cremos operar com a ponta de nossos dedos como um Deus que cria o mundo do fundo obscuro de sua solidão. Complexo de Roberto Carlos, de Rei, ou de Deus…
Questão fantasmagórica
A questão é da ordem do imaginário e de sua eficiente colonização. Não haveria o que criticar nesse desejo de conexão se ele não servisse de trunfo exploratório sobre as massas. Refiro-me às empresas de comunicação digital que usam o desejo humano de conexão e comunicação como isca para conquistar adeptos. Amizade é o nome dessa isca. Mas o que realmente está sendo vendido nessas redes se a amizade for mais que isso? Certamente não é a promessa de amizade, mas a amizade como gozo: a ilusão de um desejo realizado. E quando um desejo se realiza? Apenas quando ele dá lugar à aniquilação daquilo que o impulsionava.
Logo, o paradoxo a ser enfrentado nas redes sociais é que a maior quantidade de amigos é equivalente a amizade nenhuma. A amizade é como o amor, que só se sustenta na promessa de que será possível amar. Por isso, quando se sonha com o amor, ele sempre é desejo de futuro, no extremo, de uma eternidade do amor. O mesmo se dá com a amizade. Um amigo só é amigo se for para sempre. Mas quem é capaz de sustentar uma amizade hoje quando se pode ser amigo de todos e qualquer um?
De todas as redes sociais, duas delas, Orkut e Facebook, usam a curiosa terminologia “amigo” para nomear seus participantes. Certamente o uso da palavra não garante a realidade do fato, antes banaliza o significado do que poderia ser amizade, como mostra o recente filme A Rede Social (The Social Network, 2010), dirigido por David Fincher. O filme não é apenas um retrato de Mark Zuckerberg, o jovem e bilionário criador do Facebook, mas uma peça que pode nos fazer pensar sobre o sentido que nosso tempo digital dá à amizade.
Mark Zuckerberg, como personagem do filme, é o sujeito excluído de um clube. Dominado pelo básico desejo humano de “fazer parte”, ele decide criar seu próprio clube. No filme, ele consegue ter milhares de “conectados” – na realidade o Facebook hoje conecta 500 milhões de pessoas ou “amigos” – e perder seu único amigo verdadeiro, Eduardo Saresin. A amizade é a básica e absoluta forma da relação ética, aprendida como função fraterna no laboratório familiar e na escola; ela é uma qualidade de relação. Tratá-la como quantidade é a autodenúncia de seu fetiche e de sua transformação em mercadoria. O valor do filme está em mostrar a inversão diante da qual não há mais nenhuma chance de ética: um amigo não vale nada perto de milhões, como uma moedinha que perde seu valor diante de um cofre cheio. Amigos transformados em números não são amigos em lugar nenhum, nem na metáfora de Roberto Carlos, que serve aqui para denunciar criticamente o mundo do qual somos responsáveis junto com Mark Zuckerberg.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Aleksandr Ródtchenko: Revolução na Fotografia - Pinacoteca do Estado, até 01/05/2011

"Quero fazer fotos incríveis, nunca feitas, da própria vida, que espantarão e arrebatarão as pessoas."
Aleksandr Ródtchenko




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ditado árabe

Foto de Sedenir Taufer


"Quando sopra o vento, a vela apaga e o fogo atiça."

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A vida é um Teatro...



“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante,chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Frases Cult 153





 “Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, (...) supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste.” 
(Machado de Assis)

“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!”
(Florbela Espanca)

“Quando o sujeito depara com a fantasia que sustenta sua neurose, é como se dissesse: ‘Nossa, era só isso? Eu estava sofrendo há tanto tempo só por causa disso?’. Tem uma nota cômica, ou irônica, nesse fim da análise. Você ri um pouco das suas pretensões, do seu superego, da sua escravidão voluntária.” 
(Maria Rita Kehl)

“é que só o que não se sabe é poesia. Assim o poeta inventa o que dizer e que só ao dizê-lo vai saber o que precisava dizer.” 
(Ferreira Gullar)
 
“A sociedade viciada em percepções quer emoções fortes. Quer sentir demais. E paga por elas não apenas correndo ao show de rock, ao cinema, ou pagando a TV a cabo, mas também indo à igreja que vende a fé como grande emoção. Mas há também uma mercadoria mais simples que garante a sensação. É o ornamento barato. O vício contemporâneo em decoração, na moda, no mundo fashion em geral, serve para acobertar a angústia com o espaço aberto do sensível, o deserto do real onde teríamos de colocar o sonho verdadeiro ao qual podemos ainda chamar de imaginação. Drogas ilegais não podem obviamente ser comercializadas, o mundo do capitalismo vende apenas o efeito da droga nas “sobras” que são as mercadorias culturais industrializadas.” 
(Márcia Tiburi) 

“Isto agora é límpido e claro: nem as coisas futuras existem, nem as coisas passadas, nem dizemos apropriadamente ‘existem três tempos: o passado, o presente e o futuro’. (…) Existem, sim, três tempos: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras. (…) [os] três estão de alguma maneira na alma e eu não os vejo em outro lugar: o presente das coisas passadas é a memória, o presente das coisas presentes é o olhar, o presente das coisas futuras é a expectativa.” 
(Santo Agostinho)

“Vou entoar uma canção que conheço. Antes de iniciar, minha expectativa se estende totalmente, mas quando começar, tanto quanto eu tiver tirado da expectativa, também minha memória se estende, e a vida desta minha ação se distende na memória (em razão do que cantei) e na expectativa (em razão do que cantarei). Minha atenção também está ali, presente, pela qual o que era futuro é arrastado para tornar-se passado. E quanto mais isso acontecer e acontecer, a expectativa será abreviada e a memória será prolongada, até que toda a expectativa seja consumida, quando toda a ação terminada houver transitado para a memória. E o que ocorre na canção toda também ocorre nas suas partículas singulares, e o que ocorre nas partículas singulares também ocorre na ação mais longa, da qual talvez aquela canção seja uma partícula, e o mesmo em toda a vida do homem, das quais são partes todas as ações do homem.” 
(Santo Agostinho)

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!” 
(Florbela Espanca)

“Filosofar consiste em inverter a marcha habitual do trabalho do pensamento.” 
(Henri Bergson)

“O verdadeiro é o que não muda.” 
(Henri Bergson)

“O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?” 
(Eduardo Galeano)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sinopse - Daniel Piza


"Foi muito divertido ler as matérias sobre a mudança dos signos astrológicos. Cientes de que muitas pessoas leem horóscopo todo dia e boa parte delas o leva a sério, as publicações abriram grande espaço para o assunto e, mesmo quando pretenderam mostrar sua inconsistência científica, acabaram apenas confirmando a repercussão do tema. Até parece que só agora se sabe que o céu é bastante diferente daquele usado em mapas astrais... E era óbvio que os profissionais da área teriam “explicações” para isso, pois a mudança já estaria prevista, etc e tal. O ponto que escapou é o seguinte: o que as pessoas não suportam não é que a natureza não tenha “mistérios”, pois ela os tem, da flutuação quântica à consciência humana; é que esses “mistérios” não sirvam para orientar sua vida, para servir de guia moral, para ter um uso cotidiano. Esses segredos só podem ser mágicos, ou seja, ter algum efeito invisível e direto sobre nosso comportamento e nosso destino.

Em outras palavras, as pessoas não vão à astrologia em busca de conhecimento, mas de consolo. Ela fornece receitas e desculpas fáceis: se eu fizer isto, os astros me ajudarão; se não conseguir, é porque não sou assim. Acho engraçado quando descrevem o comportamento típico de um signo e, diante da observação de que duas pessoas do mesmo signo são completamente opostas, justificam que é por causa do ascendente. Então devo ler no horóscopo diário apenas o conselho dado ao meu ascendente? Ou devo fazer uma interpretação combinada dele com o do signo? Considerando que esses textos são os mais vagos e banais possíveis, deduzo que essa combinação vai ser aquela que se encaixar melhor nos meus desejos ou medos. Já prevejo os emails que receberei me dizendo que só com um mapa astral é possível ter essas respostas. Mas o que nunca vão entender é que uma pessoa não esteja buscando essas respostas."

(extraido de O Estado de S. Paulo, 30/01/11)