terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sinopse - Daniel Piza


"Foi muito divertido ler as matérias sobre a mudança dos signos astrológicos. Cientes de que muitas pessoas leem horóscopo todo dia e boa parte delas o leva a sério, as publicações abriram grande espaço para o assunto e, mesmo quando pretenderam mostrar sua inconsistência científica, acabaram apenas confirmando a repercussão do tema. Até parece que só agora se sabe que o céu é bastante diferente daquele usado em mapas astrais... E era óbvio que os profissionais da área teriam “explicações” para isso, pois a mudança já estaria prevista, etc e tal. O ponto que escapou é o seguinte: o que as pessoas não suportam não é que a natureza não tenha “mistérios”, pois ela os tem, da flutuação quântica à consciência humana; é que esses “mistérios” não sirvam para orientar sua vida, para servir de guia moral, para ter um uso cotidiano. Esses segredos só podem ser mágicos, ou seja, ter algum efeito invisível e direto sobre nosso comportamento e nosso destino.

Em outras palavras, as pessoas não vão à astrologia em busca de conhecimento, mas de consolo. Ela fornece receitas e desculpas fáceis: se eu fizer isto, os astros me ajudarão; se não conseguir, é porque não sou assim. Acho engraçado quando descrevem o comportamento típico de um signo e, diante da observação de que duas pessoas do mesmo signo são completamente opostas, justificam que é por causa do ascendente. Então devo ler no horóscopo diário apenas o conselho dado ao meu ascendente? Ou devo fazer uma interpretação combinada dele com o do signo? Considerando que esses textos são os mais vagos e banais possíveis, deduzo que essa combinação vai ser aquela que se encaixar melhor nos meus desejos ou medos. Já prevejo os emails que receberei me dizendo que só com um mapa astral é possível ter essas respostas. Mas o que nunca vão entender é que uma pessoa não esteja buscando essas respostas."

(extraido de O Estado de S. Paulo, 30/01/11)