quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vinicius de Moares: Testamento



Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar
Por cima uma laje 
Embaixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo... 
E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, 
pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia.
Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...
Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar
 
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar
  
Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations  
(e tome gravata!),
protocolos, comendas, caviar, champanhe 
(e tome gravata!),
o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito
(e tome gravata!) 

e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra
  
Você que só faz usufruir 
E tem mulher pra usar ou pra exibir 
Você vai ver um dia 
Em que toca você foi bulir!

A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, 
linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. 
E é ai que o distinto esta muitissimo enganado, no mais das vezes 
ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, 
cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. 
É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas
Você que não gosta de gostar 
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar 
Você vai ver um dia 
Em que fria você vai entrar!
Por cima uma laje 
Embaixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão!